Eduardo Rocha
Padre
Ao entrar na Basílica de São Pedro, no Vaticano, na primeira capela à direita da nave central, o fiel se depara com uma das esculturas mais conhecidas da humanidade: a Pietà, de Michelangelo. É uma experiência estética capaz de tocar a alma mais insensível. Mas não só estética. A obra de arte retrata o momento de maior dor na vida de Maria e de toda mãe; segurar no colo, junto ao ventre, o corpo do filho sem vida. É impossível não ser impactado pela cena. Tão humana, tão nossa, tão divina!
Na releitura da cena bíblica, Michelangelo soube harmonizar o corpo do filho sem vida, na horizontal, ao corpo da mãe, na vertical. Duas dimensões-limite que se tocam na obra-prima: morte (de Deus!) e vida de Maria. Esta, se em pé e nas proporções da escultura, seria incomparavelmente maior que seu filho. Não foi um erro de dimensionamento das duas figuras. Michelangelo sabia que a mãe se agiganta diante da dor; é sensível, mas não se dobra às forças que roubam a vida do filho.
A presença de Maria na cena do escárnio do Homem-Deus desvela um horizonte de sentido à dor e aos limites da existência. Por ela, vislumbramos novas perspectivas que transcendem o fato e nos fazem superar os fatalismos da existência de Jesus e de nossa contingência.
A pandemia nos devolveu a consciência que somos precários, pobres e provisórios! A Senhora da Piedade, com o semblante apiedado e o corpo em riste, no centro da obra, comunica uma verdade aos crentes e descrentes: a vida se sobrepõe à morte; em meio ao campo desolado uma flor sempre nascerá.
É por esta flor que nasceu junto à cruz, Maria Santíssima, que aprendemos a esperançar. Esperançar não apenas é esperar. Esperançar é pôr-se em marcha, ir atrás, buscar novo horizonte. É a presença que supera a ausência.
Que através da Senhora da Piedade saibamos esperançar em tempos de precariedade. Que sejamos a nobre flor, capaz de exalar o precioso odor, que anuncia a próxima estação. E conservemos, com serenidade, tal como a Mãe, que a luz sempre brilhará. Afinal, o amor não conhece a morte.