Terça-feira, 28 de julho de 2026
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Ao meu primo e padrinho, Olavio Falchetti

Artigo

28/07/2026 06:00|Por Márcio Dal-Bó | Psiquiatra

Como hercilista e como tubaronense, quero começar expressando minha gratidão a Olavio por tudo o que fez pelo Hercílio Luz e pela cidade de Tubarão. Sua história está ligada a ambos e merece ser lembrada com respeito e reconhecimento.

Mas, para mim, essa gratidão vai além da vida pública.

Para quem não sabe, sou primo e afilhado do Olavio. Nossa convivência começou quando eu ainda era criança e ele um adolescente. As primeiras lembranças que guardo dele me levam aos verões da Praia da Vila Nova, em Imbituba.

Meu pai tinha uma casa na praia da Vila, como a chamávamos. Ao lado ficava a casa do Eloi Dal-Bó, pai da Jane, esposa do Olavio. Nos fins de semana, primos, tios e amigos se reuniam, como era costume entre as famílias italianas da nossa região. Cavava-se um buraco na areia, cercava-se com alguns tijolos e ali nascia o churrasco. Às vezes era peixe, outras polenta ou massa com galinha. A comida era apenas um pretexto. O verdadeiro motivo era estarmos juntos.

Foram dias de conversas, risadas e uma alegria simples, daquelas que o tempo transforma em saudade. Quando penso na minha infância, penso também naqueles verões da Vila.

Lembro do Olavio ainda adolescente, às vezes acordando durante a noite, meio dormindo, fazendo de conta que lançava redes de pesca. Minha mãe perguntava: “Olavio, o que está acontecendo?”. E ele respondia: “Estou pescando, tia Lourdes…”. Até hoje essa lembrança me faz sorrir.

Depois a vida nos levou por caminhos diferentes. Passei quase trinta anos fora de Tubarão durante minha formação médica. Quando voltei, retomamos a convivência. Conversávamos sobre o Hercílio Luz, paixão que sempre nos uniu, e também sobre a Fundação Educacional Joanna de Ângelis, fundada por ele e pela Jane, obra da qual muito se orgulhava e para a qual tive a alegria de colaborar, sendo padrinho de uma das crianças.

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No último ano, nossas conversas se tornaram mais frequentes. Mesmo após o infarto, comemoramos por mensagens a vitória do Hercílio sobre o Tubarão. Ele já sonhava com o retorno do nosso Glorioso Leão do Sul à Série A e me escreveu dizendo que estava melhor.

Olavio tinha um sorriso largo, uma alegria espontânea, um ar ingênuo, um sotaque italiano reconhecido de longe e uma simplicidade que aproximava as pessoas. Sempre que o encontrava, via muito do tio Delírio e da tia Aurora, seus pais. Era como reencontrar um pedaço da nossa história.

Na sua despedida, vi, sobre o caixão, a bandeira vermelha e branca do Hercílio. Foi uma bela e justa homenagem. O Leão fez parte da sua vida e era natural que o acompanhasse.

Vi a Jane, seus filhos e tantos amigos profundamente entristecidos. Algumas coisas são difíceis de compreender.

Tenho vivido um sentimento paradoxal: a alegria pela conquista do Hercílio e a tristeza da sua partida. Por vezes, a vida reúne no mesmo dia a celebração e o luto.

Gostaria também de deixar uma sugestão: que um dia Tubarão lhe preste homenagem dando seu nome, por exemplo, a uma praça. Sugiro no Parque Linear, em frente à sua casa. João Olavio Falchetti merece permanecer também na memória da cidade que amou.

Não digo “missão cumprida”, pois tenho a impressão de que Olavio ainda tinha muito a fazer pelo Hercílio e por Tubarão. Mas o que realizou já basta para justificar nossa gratidão.

Gosto de imaginar que aquela velha italianada dos churrascos de domingo na Vila Nova, muitos já falecidos, tenha te recebido com um grande abraço, polenta, um bom vinho, risadas e histórias antigas.

Outro dia ouvi uma frase que cabe bem para quem te conheceu: saudade é o azar de quem teve muita sorte. Eu tive essa sorte.

Obrigado, Olavio. Até um dia.

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