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Fotógrafo acompanha plantão em hospital

21/08/2020 06:00
Jean Habkost/DS

Por trás das lentes do fotógrafo Jean Habkost, de Jaguaruna, uma experiência realizadora e, ao mesmo tempo, triste e dramática. Ele acompanhou o plantão de uma médica da ala de covid-19 do Hospital de Caridade Senhor Bom Jesus Passos, em Laguna, e registrou por meio de fotografias.


De acordo com o fotógrafo, foram muitos atendimentos, entre emergência e triagem de suspeita do coronavírus, durante o plantão de nove horas. “Foi um dia muito agitado. Foram mais de dez atendimentos, mais de cinco casos com suspeita sintomática para coronavírus, algumas internações, uma emergência com suspeita de infarto, um óbito, além de toda aquela correria de um andar para outro. Não paramos um minuto sequer”, relata.


Jean conta que a parte mais incômoda da experiência foi não saber o que iria acontecer. “Você nunca sabe o que te espera em um dia de trabalho comum, ainda mais na emergência de um hospital. Poderia ser um dia tranquilo ou não. E isso incomodou. Depois, lá dentro, tudo acontece muito rápido, e o mais difícil foi me colocar no lugar e hora certos para o registro, sem atrapalhar ninguém”, ressalta.


A experiência, para Jean, foi ambivalente. “Foi realizadora, embora seja triste e dramática ao mesmo tempo. É uma mistura de sentimentos difíceis de descrever, mas de uma coisa tive certeza: não posso parar de fazer isso”, diz.


Entre os sentimentos antes dos registros fotográficos, ele fez que inquietude e impotência vieram à mente. “De alguma forma, ver tudo acontecendo e não fazer nada gera um sentimento avassalador de impotência. Então, chegar lá e acompanhar um plantão me gerou um senso de realização, algo a mais estava sendo feito. Não cruzei os braços para isso e decidi fazer parte”, acrescenta Jean.


Projeto

Segundo Jean, o objetivo destes registros é deixar um legado histórico do momento em que se vive. “Essas imagens terão um peso maior a cada ano que passar. Além disso, temos o objetivo real de continuar trazendo consciência às pessoas sobre tudo isso. Talvez de uma forma mais intimista, in loco, mas ainda assim lembrando sempre que o vírus é real e as medidas preventivas precisam ser mantidas”, explica o fotógrafo.


“Então, tudo o que for feito com as imagens e tiver esse cunho, matérias, exposições e talvez até um livro, será bem-vindo. Penso que se as pessoas enxergarem de forma mais íntima a batalha travada dentro dos hospitais, elas podem se sensibilizar um pouco mais”, ressalta Jean.

 

A rotina dentro da ala de tratamento da covid

Diariamente, a médica Sabrina Peixoto Flesch trabalha na ala de coronavírus do Hospital de Caridade Senhor Bom Jesus Passos. Ela, que foi fotografada pelo Jean durante um plantão, conta que o início foi complicado e é preciso ter uma mente e corpo muito sadios para se manter na linha de frente do combate à covid-19.


“A princípio, foi um choque. Muitos sentimentos vieram à tona: incerteza, insegurança, receio. Principalmente o medo de lidar com o desconhecido. Quando estamos na faculdade, aprendemos tudo o que já é conhecido e bem documentado nas maiores referências literárias. Então, lidar com uma pandemia nos trouxe esses sentimentos. Iríamos continuar lidando com todas as outras doenças e ainda com esse novo vírus”, relata Sabrina.


Segundo a médica, a preocupação é a mesma para todos os profissionais de saúde. “Nossa maior preocupação é a de sermos transmissores para os que mais amamos: família, amigos. Eu, como portadora de doença respiratória crônica, fiquei preocupada também em me contaminar. Começamos a desconfiar de todos, entramos em certas paranoias que acabam causando danos ao nosso psicológico. Imagina viver tudo isso e ainda viver isolado para proteger a todos”, revela Sabrina.


Para ela, ser fotografada em meio ao trabalho à frente do combate dessa pandemia foi algo digno. “Não só em me retratar no dia a dia, mas mais ainda documentar toda a realidade de um hospital diante da pandemia. Realidade no suporte, na equipe, nos famosos EPIs. É de extrema importância que a população tenha a oportunidade de acompanhar, de dentro de seus lares, o arriscado trabalho que prestamos”, pontua.


“A imagem se faz importante pra mostrar em silêncio. Ela grita em silêncio, causa impactos e talvez muito mais do que horas de explicação sobre o assunto. O visual fixa e fica marcado. Retratado pelos olhos de quem tem tal sensibilidade é também uma arma poderosa ao combate”, ressalta a médica.

 

O mais difícil

Para a médica Sabrina, é complicado cumprir com o pacto pela vida e ver tantas pessoas descumprindo enquanto os profissionais de saúde fazem horas intermináveis de plantão. “E para nossa infelicidade, com pouca colaboração da sociedade, a mesma que nos chama de super-heróis. Passar essas mesmas horas de máscaras sobrepostas abaixo de um capacete também cansa, e muito. O aumento do consumo de analgésicos para dores de cabeça tem sido rotineiro. Uma infinidade de mudanças na rotina em que não estávamos preparados a mudar”, desabafa.

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Tatiana Dornelles

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