Larissa Albuquerque - Reitora da UniSul
As transformações tecnológicas, sociais e culturais têm colocado novos desafios para a educação. Em um cenário marcado pelo avanço da inteligência artificial e pela necessidade de responder a problemas cada vez mais complexos, preparar as próximas gerações exige mais do que atualizar currículos ou incorporar ferramentas digitais. É preciso repensar o papel das instituições de ensino, a formação dos estudantes e a conexão do conhecimento com as necessidades da sociedade.
Liderar nesse contexto significa reconhecer que as respostas não estão concentradas em uma única instituição ou área do conhecimento. A educação precisa articular diferentes experiências, competências e saberes, criando condições para transformar conhecimento em soluções concretas. Liderar para transformar é fazer com que a capacidade coletiva de compreender e resolver problemas seja maior do que a soma das capacidades individuais.
Essa perspectiva também orienta a reflexão sobre o papel das mulheres nos espaços de decisão. Ampliar a presença feminina na liderança é essencial, sobretudo em ambientes nos quais essa participação foi historicamente limitada. No entanto, a mudança não se resume à ocupação de cargos: depende da possibilidade de influenciar prioridades, questionar práticas e participar efetivamente das decisões.
Entendo que não existe uma maneira feminina única de liderar, tampouco uma experiência comum a todas as mulheres. O valor da diversidade está na ampliação das perspectivas para compreender problemas e formular respostas. Na educação, isso significa reconhecer diferentes realidades, escutar experiências que nem sempre chegam aos espaços de decisão e rever práticas que deixam de cumprir sua finalidade social.
Liderança para além da representatividade
A presença de mulheres em cargos de liderança, por si só, não garante mudanças na gestão ou nos resultados de uma instituição. A transformação mais profunda ocorre quando a diversidade deixa de depender das características individuais de quem ocupa uma posição e passa a integrar a cultura organizacional.
Isso envolve os critérios de desenvolvimento profissional, a distribuição de oportunidades e a avaliação de resultados. Na gestão educacional, exige-se conciliar dimensões como sustentabilidade financeira, qualidade acadêmica, experiência dos estudantes, desenvolvimento dos professores e compromisso com a sociedade. Não basta mudar quem ocupa a cadeira se a lógica das decisões permanece intocada.
Educação em um mundo de mudanças aceleradas
O avanço da inteligência artificial torna ainda mais urgente discutir o que significa preparar alguém para o futuro. Em vez de tentar antecipar todas as competências exigidas pelo mercado de trabalho, defendo uma formação que permita aos estudantes aprender continuamente, interpretar contextos, fazer escolhas e enfrentar problemas sem respostas prontas.
O acesso à informação e a automatização de tarefas reforçam a importância do pensamento crítico, da criatividade, da capacidade de julgamento e da responsabilidade. A formação também precisa preparar os estudantes para trabalhar com pessoas que pensam de maneira diferente e construir soluções em conjunto.
Outro desafio é superar a fragmentação do conhecimento. Muitos problemas contemporâneos exigem a integração entre diferentes áreas. Questões relacionadas ao desenvolvimento regional, por exemplo, envolvem formação profissional, atividade econômica, políticas públicas, cultura e qualidade de vida. É nessa articulação que a educação pode ampliar sua contribuição para a sociedade.
Universidade e sociedade: uma relação de mão dupla
A conexão entre a educação e as necessidades da população depende de uma relação contínua entre universidades, empresas, poder público, organizações sociais e comunidades. Cada ator reúne experiências e conhecimentos que contribuem para compreender desafios coletivos.
A universidade não deve apenas levar o conhecimento produzido em seus espaços para o ambiente externo. Também precisa aprender com as experiências e contradições da sociedade, reconhecendo que a capacidade de inovação está distribuída por diferentes setores.
Essa colaboração exige confiança, continuidade, objetivos compartilhados e disposição para rever perspectivas. O papel da universidade é criar condições para que diferentes conhecimentos se encontrem, sejam questionados e deem origem a novas respostas.
Nesse processo, a participação de mulheres em posições de liderança pode ampliar a diversidade de vozes e fortalecer a colaboração entre instituições e grupos sociais, valorizando a escuta e a responsabilidade compartilhada.
Liderar para transformar significa reconhecer os limites das respostas individuais e construir condições para a inteligência coletiva. Acredito que uma educação preparada para o futuro não depende apenas de novas tecnologias ou currículos atualizados, mas também da capacidade de integrar perspectivas, formar cidadãos críticos e estabelecer relações duradouras com a sociedade. A educação cumpre plenamente seu papel quando o conhecimento deixa de ser apenas um patrimônio de quem o produz e passa a ser uma capacidade compartilhada de transformar realidades.