Variedades

JOSÉ WARMUTH




Sexta-feira, 09/08/2019, às 06:00

A ressurreição de uma gata

Nos anos 40, tive uma carinhosa gata de nome Chifon. Ela era uma orgulhosa angorá. Preocupada com a sua higiene pessoal, vivia a lamber-se e evitava ambientes poluídos, jamais andando sobre a lama, preferindo, neste caso, não sair de casa. Preguiçosa e comodista como todos os felinos o são, escolhia as mais fofas almofadas para tirar suas sonecas, acompanhadas por um sonoro ronronar.

Certa feita, após uma pescaria em um riacho no subúrbio do Rio, onde morava, levei mais de hora limpando os mais de dúzia de pequenos carás, lambaris e cascudos que pesquei. Por que será que os peixes que nós mesmos pescamos são mais saborosos? Após o exaustivo trabalho, deixei os peixes sobre o balcão da pia, à espera da frigideira, antegozando o prazer de comê-los no jantar. E fui fazer os deveres da escola. Lá pelas tantas, ouvi um “miau”. Corri para ver. Chifon, sobre o balcão, lambia os beiços, a barriga estufada feito uma bola. Dos peixes, somente as tripas no lixeiro.

A convivência da Chifon com o meu cão Basquete não era nada cordial e não foram poucas as vezes que ele ganhou dolorosas unhadas no focinho, pelo desaforo de querer desalojá-la do seu prato de comida.

Há alguns dias criei, em minha mente, uma fantasia na qual Chifon havia ressuscitado e que passara a comparar o mundo que outrora conhecera com o de hoje em dia.

Ficou ela encantada ao conhecer as saborosas e cheirosas rações para gatos de hoje em dia, enriquecidas com cálcio e vitaminas, com sabor à escolha e, entre eles, o de peixe, imagine! E o condicionamento do ar, que maravilha: temperatura amena o ano todo! Sentiu falta do saudoso e gostoso pires com leite, com que acompanhava os comensais, no café da manhã, hábito hoje um tanto em desuso.

A escassez de ratos para tocaiar também lhe chamou a atenção e ficou muito admirada ao constatar que, além das ardilosas iscas raticidas, a ratoeira, armada com um apetitoso cubo e queijo ainda é a mais eficiente arma contra aqueles roedores. Não pode deixar de se sentir um pouco inútil perante a desnecessidade daquela sua tradicional utilidade.

Como no dizer popular, gato escaldado tem medo de água fria, Chifon não gostou muito da facilidade que hoje existe do banho semanal programado, em que o motoboy vem pegá-la para uma higiene forçada, inoportuna e desnecessária, já que ela se sente autossuficiente para isto. Mas curte, pelo menos, por ser vaidosa, aquela mimosa fitinha no pescoço, com que lhe devolvem ao seu dono.

Sentiu-se sobejamente lisonjeada ao saber que, na atualidade, chamamos de gata uma mulher bonita e sensual.

Na televisão, maravilha eletrônica que não existia no seu tempo, assistindo a um documentário, eriçou os pelos ao ver a famosa estatueta de um gato, do tempo dos faraós, existente no Museu do Louvre, em Paris. Os egípcios deles tanto gostavam, que faziam com que os mumificassem ao morrerem.

Fim da fantasia. Com desencanto, vi dissipar-se a imagem da minha querida Chifon. Ela voltou para o passado distante.