Variedades

RENATA DAL-BÓ




Quarta-feira, 31/07/2019, às 06:00

“Abapuru é um fetiche”

A frase do título foi dita por Marcello Dantas, um renomado curador de exposições, diretor artístico e documentarista. E o motivo de dizê-la deve-se ao fato de que a mostra “Tarsila Popular”, que aconteceu entre abril e julho no Museu de Arte de São Paulo (Masp), atraiu até o dia 25 mais de 350 mil pessoas. Só na terça-feira (23), dia da semana em que a entrada no museu é gratuita, foram 8.818 espectadores, recorde de visitação no Masp em um único dia. A mostra integra o ciclo “Histórias das mulheres, histórias feministas”, eixo temático que guia a programação da instituição ao longo de 2019.

A obra de Tarsila está na base da construção de uma identidade nacional nas artes. Ao lado de nomes como Cândido Portinari, Lasar Segall e Anita Malfatti, Tarsila voltou-se para personagens, temas e narrativas ligados ao popular no Brasil. Abapuru, sua obra “fetiche”, foi pintada em 1928 e inspirou o Manifesto Antropófago, de Oswald de Andrade (seu marido na época), que propunha a apropriação e deglutição, pela cultura nacional, do legado cultural europeu, para devolvê-lo ao mundo sob a forma de uma produção cultural própria, brasileira.

Tive o privilégio de ver o Abapuru de Tarsila, ao vivo e em cores, numa viagem que fizemos em família para Buenos Aires, em fevereiro de 2013. Ao planejar a viagem, descobri pela internet que o Malba (Museo de Arte Latinoamericano de Buenos Aires) estaria oferecendo um workshop de pintura para crianças.

Fiquei superanimada, pois o Bruno sempre gostou muito de pintura e, na época, estava fazendo aulas. No dia marcado seguimos para o museu, todos muito ansiosos para saber como seria o workshop. E o melhor é que os pais podiam entrar com os filhos. Mariana tinha uns três aninhos e, metida como sempre foi, também quis participar.

Lá estávamos nós, os únicos brasileiros no meio de um grupo de pais e crianças portenhos. A primeira parada foi justamente em frente ao Abapuru, para a nossa surpresa, pois não sabíamos que o quadro estava exposto no museu. A monitora começou a falar e perguntar para as crianças o que elas sabiam sobre a autora daquela figura humana inusitada, de cabeça minúscula e pés e mãos gigantes.

As crianças, então, interagiam e aprendiam sobre Tarsila e a arte moderna brasileira. Fiquei contente em saber que a obra de Tarsila do Amaral estava sendo exposta no Malba, mas ao mesmo tempo fiquei intrigada: “Por que o Abapuru não estava exposto no Brasil, que é o país de origem da autora e representa o modernismo, um movimento artístico de tanta relevância para nós?”. Lembro-me que ainda pensei: “Certamente, não haveria um público expressivo interessado em vê-la, uma pena”.

Então, ao ler a notícia que a mostra de Tarsila teve recorde de público, muito provavelmente superando os 401 mil visitantes que estiveram no Masp nos anos 90 para ver o impressionista francês Claude Monet, fico extremamente feliz em poder dizer que estava redondamente enganada.