Variedades

RENATA DAL-BÓ




Quarta-feira, 22/05/2019, às 06:00

Entre quatro paredes

Todos os dias, abrimos os jornais ou ligamos a televisão e nos deparamos com crimes bárbaros cometidos por pessoas tidas, até então, como “normais”. É o caso do marido que depois de 20 anos de casado se separa e resolve tirar a vida da esposa, e, depois, a própria. O pai que sempre foi visto como carinhoso com os filhos e descobre-se que há anos ele estuprava a filha mais velha. O padre que prega o sermão na missa de domingo e tem um caso com um seminarista (nesse caso, seria um crime religioso). O pai e a madrasta, considerados um casal comum, tramam e executam a morte do filho/enteado. Um colega de aula que sempre sentou ao seu lado, num belo dia chega na escola com um revólver, atirando na professora e nos amigos, como aconteceu há pouco tempo na Escola Estadual Professor Raul Brasil, em Suzano-SP. Aqui mesmo, em Tubarão, no Dia das Mães, um policial aposentado matou a tiros a ex-companheira, na frente do filho dela de 18 anos. O motivo do crime, conforme a delegada, foi que, após o término do relacionamento, o suspeito viu a vítima com outra pessoa em uma festa, e teria ficado enciumado. Simples assim.

Como diz o ditado popular: “De perto, ninguém é normal”, eu iria além, diria que entre quatro paredes temos uma identidade secreta, que ninguém imagina, até que uma hora a bomba estoura. Sejamos menos dramáticos e analisemos situações mais corriqueiras, que não chegam a ser uma tragédia, mas acontecem no nosso cotidiano. Por exemplo, aquela senhorinha que te cumprimenta todos os dias com um sorriso de orelha a orelha, na verdade passa as noites insones, chorando pela vida infeliz e solitária que leva, e remoendo suas angústias. A esposa perfeita, e mãe zelosa, sofre de uma tristeza profunda pelas escolhas que fez, pois não suporta a presença do marido e acha a criação dos filhos um verdadeiro martírio. O colega que exibe sua riqueza, esbanjando dinheiro a torto e a direito, na verdade não passa de um recalcado, de uma enorme carência afetiva e de uma pobreza intelectual gritante. Seu colega de trabalho educadíssimo, cheio de gentilezas, na realidade é um pai tirano e cruel, que oprime o filho e abusa de sua autoridade. O marido que se mostra sempre todo apaixonado pela esposa tem uma amante há anos.

Na realidade, muitas vezes, questões como “quem somos, o que queremos e o que somos capazes de fazer (para bom ou para ruim)” não estão claras nem para nós mesmos. Vivemos num mundo de aparências, no qual pensamos que nos conhecemos  bem e a quem nos relacionamos. Ledo engano. Afinal, quem somos nós entre quatro paredes?