MENU

COLUNISTAS


Variedades

AMANDA MENGER




 
 

Quinta-feira, 20/12/2018, às 06:00

Tempo

Uma obra tem trazido um toque de caos a mais ao já ruim trânsito da cidade. Em período de Natal Luz, imagina a encrenca que é sair, entrar ou mesmo trafegar pelo Centro. Na espera em uma fila, viro para o lado e observo um muro que havia sido pichado. Poderia eu falar do absurdo que é destruir o patrimônio público e privado com tais inscrições. Mas o que estava escrito ali me chamou muito a atenção. A frase era a seguinte: “Tempo não é dinheiro. Tempo é vida”.

Tapa na cara. Soco no estômago.

A pichação desconstruía o mito de que tempo é dinheiro. A frase surgiu na Inglaterra do período industrial: time is money, em um sentido de que todo o tempo é tempo de produção. Já pensou em como introjetamos isso? Vivemos reclamando da correria, de não termos tempo e do quanto queremos mais tempo. E, pra quê? Pra ganhar mais dinheiro? Pra produzir mais? E não nos damos conta de que o tempo não se converte em dinheiro. O tempo que estamos correndo, que estamos produzindo, é tempo de vida.

Marx, sim, vou citar o barbudo, sim – primeiro leia, estude, entenda e depois, então, o critique, se assim achar necessário –, dizia que o trabalhador, o proletário é aquele que vende a sua força de trabalho. Sim, vendemos a força de trabalho, mas não só a força. Estamos vendendo o nosso tempo. Em essência, estamos vendendo a vida.

Tapa na cara. Soco no estômago.

É fim de ano. Natal é logo ali dobrando a esquina. E o que você fez? – já cantava Simone. Com o que você gastou seu tempo? Com que, para que você está vendendo sua vida? Trabalho é importante, sim. Afinal, temos boletos pra pagar. Mas, do que são estes boletos? Você está comprando coisas que são necessárias ou estas coisas estão comprando você? Essa crônica é uma reflexão não só para você, leitor, mas pra mim também. Escrever ajuda a pensar, a clarear as ideias e a organizá-las, a entender os sentimentos e a melhor conviver com eles.

Reavaliar o que fazemos, ao que nos dedicamos, é importante. Grande parte do tempo de vida é trabalho, mas não é só isso. A que outras atividades estamos nos dedicando? Com o que, além do trabalho, estamos gastando a vida? Será que são boas ações? O quanto disso é realmente importante ou agrega sentido e valor à vida? Isso o deixa feliz? Isso o torna mais feliz? Às vezes, nos preocupamos demais com coisas que poderiam ser mais facilmente resolvidas, ou até deixadas de lado. Às vezes, queremos fazer tudo sozinhos, ou sentimos que devemos fazer sozinhos e nos esquecemos de pedir ajuda ou mesmo de oferecer ajuda a outra pessoa.

É final de ano, 2019 está a um pouco mais de um quarteirão de distância. Desejo a você, leitor, e a mim mesma mais tempo. Mais tempo para viver. E viver, não apenas sobreviver. Não apenas dar conta das tarefas. Antes de tudo, decidir quais atividades são importantes e, portanto, prioritárias, e que vão ser satisfatórias, podendo gerar bons momentos. Desejo mais tempo para atividades de leitura; filmes; viagens; conversa com os amigos; caminhadas; mais tempo para estudar; mais tempo para descobrir receitas e sabores; mais tempo para ficar com os gatos no colo e olhar as nuvens passarem; mais tempo pra fazer ou não fazer nada. O alerta está aí nos muros da cidade, para nos lembrar que tempo não é dinheiro. Tempo é vida. 




OUTRAS COLUNAS









MAIS LIDAS










Avenida Marcolino Martins Cabral, 1315, 6º piso Praça Shopping
Centro - Tubarão/SC - CEP 88701-105 - 48. 3631-5000
Todos os direitos reservados - JORNAL DIÁRIO DO SUL