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RENATA DAL-BÓ




 
 

Quarta-feira, 10/07/2019, às 06:00

Que coisa linda, que coisa louca

Era julho de 2002, estávamos passeando pelo calçadão da Promenade des Anglais, orla de Nice, na Costa Azul, área litorânea francesa. O sol estava a pino, o céu e o mar eram de um azul turquesa intenso e se encontravam no horizonte. Estávamos extasiados com tanta beleza. De repente, ouvimos uma música de melodia bastante familiar, porém, cantada em francês: “Vas-y, tristesse, et dis-lui que sans ele ça ne marche pas, prie-la de son retour car je ne peux plus souffrir”. Apesar de não entender a letra, identificamos a música logo nos primeiros acordes. Era “Chega de Saudade”, do pai da bossa nova João Gilberto. Sabia que os franceses eram apaixonados por bossa nova, mas ouvir a nossa música naquele cenário parecia que estávamos fazendo parte daqueles comerciais de margarina, onde tudo é perfeito e as pessoas são eternamente felizes.

Fomos seguindo o som até chegarmos em um barzinho da orla, onde havia um cantor, num cantinho, e o violão. Sentamos em uma mesinha próxima, pedimos um vinho e ficamos apreciando aquela música maravilhosa. Daqui a pouco, o cantor começa a cantar em português, com um sotaque francês peculiar:

“Mas se ela voltar, se ela voltar,

Que coisa linda, que coisa louca

Pois há menos peixinhos a nadar no mar

Do que os beijinhos que eu darei

Na sua boca, dentro dos meus braços...”


Me belisca, devo estar sonhando. Não, não me belisca, se estiver sonhando não quero acordar. Esse foi um daqueles momentos de viagem que a gente nunca esquece. A certa altura, depois de umas taças de vinho, tomei coragem e fui me apresentar ao músico, dizer que éramos brasileiros e estávamos maravilhados em ouvir bossa nova em Nice. O cantor, então, disse que havia aprendido bossa nova com o próprio João Gilberto. Não acreditei, “que coisa linda, que coisa louca”. Estávamos a um aperto de mão do gênio da bossa nova. O músico, então, anunciou para todos no bar que éramos brasileiros e que, a partir daquele momento, cantaria em português em nossa homenagem. Ainda pediu uma salva de palmas para nós e para João Gilberto. E foi assim que terminamos a nossa estada na Riviera Francesa. “Um cantinho e um violão, este amor, uma canção, pra fazer feliz a quem se ama...”

A crônica de hoje é uma singela homenagem ao cantor, violonista e compositor João Gilberto, que nos deixou no último dia 6 de julho, aos 88 anos. João cantava baixinho e inventou uma batida nova no seu violão. “Devo argumentar que isso é muito natural, é a bossa nova”, dizia João Gilberto.




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