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RENATA DAL-BÓ




 
 

Quarta-feira, 12/06/2019, às 06:00

Inútil sem culpa

Nos anos 80, o grupo “Ultraje a Rigor” fez muito sucesso com a música “Inútil”, que eu muito me identificava, e me identifico cada vez mais. Para quem não conhece, aí vai um pedacinho:

“A gente faz música e não consegue gravar;

A gente escreve livro e não consegue publicar;

A gente escreve peça e não consegue encenar;

A gente joga bola e não consegue ganhar;

A gente somos inútil”.

Se olharmos no dicionário a definição da palavra “útil”, veremos: “Que tem uso, préstimo ou serventia; que satisfaz uma necessidade”. Um automóvel, por exemplo, é útil, pois serve para nos locomovermos. A roupa que visto é útil, pois me protege do frio. Os dias da semana considerados úteis são aqueles que trabalhamos. Sábado e domingo, portanto, os dias que descansamos e geralmente fazemos aquilo que gostamos ou nos dá prazer (como sair para jantar, ficar com a família, ler um livro, viajar) seriam dias inúteis? E a arte, a poesia, a música têm alguma utilidade em nossas vidas? Se levarmos em consideração que na sociedade contemporânea ocidental em que vivemos a utilidade está associada aos resultados visíveis de nossas ações, ou seja, somos úteis quando temos prestígio, fama, poder ou riqueza, a resposta seria ‘não’.

Pois vou confessar que as coisas que mais gosto de fazer na vida são inúteis, como, por exemplo, esta crônica que estou escrevendo. Serve para quê? Não me trará fama, nem prestígio e nem poder, portanto é absolutamente inútil. No entanto, adoro escrever essa e outras tantas crônicas. Outra coisa inútil que adoro fazer é ver séries e filmes. No final de semana passado, passei horas me deleitando com este prazer inútil.

Mestres da pintura como Van Gogh, Paul Gauguin, Picasso e Salvador Dali “desperdiçaram” suas vidas fazendo artes inúteis, para que nós passássemos inúmeras horas improdutivas em museus apreciando-as.

Quer coisa mais inútil que poesia? E o mais interessante é que a beleza da poesia está justamente em sua inutilidade, pois não tem nada a ver com aquilo que está acontecendo no mundo exterior, com a crise, com a política, e muito menos com o poder. A poesia tem a ver com aquilo que está acontecendo dentro da nossa alma, com a nossa verdade. E existe coisa mais inútil na era das “fake news” do que a verdade? Faço aqui um brinde às inutilidades da vida. Que possamos apreciá-las cada vez mais, e sem culpa. 




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