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LUIZ MARINS




 
 

Segunda-feira, 15/04/2019, às 06:00

Beber o sólido e comer o líquido

Um dos maiores problemas da atualidade é a obesidade. Pode parecer ridículo ou contraditório, mas, enquanto a maioria do mundo ainda passa fome, milhões, principalmente nos países mais ricos, são obesos. São centenas de livros publicados sobre dietas, as mais incríveis e mirabolantes. Hoje, se condena e se indica como saudável quase tudo o que pode ser ingerido: do café ao pão; do ovo ao leite, tudo é discutido, aprovado, reprovado, e os alimentos passam de heróis a vilões, em minutos, no mundo inteiro. O que fazer num mundo de tantos modismos?

Os cientistas mais sérios no mundo inteiro parecem recomendar que se coma de tudo, porém de forma moderada. Mas como conseguir isso? É aqui que os antropólogos têm sido chamados a opinar. Como tem sido a dieta humana nos últimos milênios da civilização? Como o homem primitivo se alimentava? O que fazer hoje?

Como antropólogo, pude observar tanto entre os aborígines australianos quanto entre os índios brasileiros e outras sociedades que visitei, que, independentemente de sua dieta, todos fazem suas refeições com muita calma e tempo. Eles mastigam muito os alimentos que levam à boca. Eles saboreiam os alimentos. Eles parecem saber que, além da função puramente alimentar, comer é um dos maiores prazeres da vida, e eles curtem esse prazer com respeito, e até uma certa ritualização.

O mundo moderno, do fast-food e do comer com culpa (para não engordar), tirou o ritual e o prazer das refeições. O comer “científico” (sic) da era do micro-ondas e da falta de tempo, quando queremos medir as calorias e as proteínas de cada alimento, nos tirou a naturalidade na mais elementar função do ser humano, que é comer. Comer virou culpa, e não prazer.

Assim, o meu conselho simples é o mesmo dos sábios da antiguidade, dos orientais, dos monges ocidentais e dos primitivos que conheci: comer devagar, em bocados pequenos, e comer de tudo, sem culpa, com prazer, mastigando muito e agradecendo a cada bocado, até mesmo uma sobremesa ou fruta e um bom vinho bebido, igualmente, com muita moderação.

Assim, beba o sólido e coma o líquido, ou seja, lembre-se de que a boca é parte essencial do sistema digestivo. Portanto, mastigue bem, até que o sólido se torne líquido, para que seja “bebido”. E coma o líquido, ou seja: beba devagar, saboreando a sua bebida como se fosse algo sólido. Resumindo: ao comer e ao fazer tudo na vida, lembre-se da velha e atual virtude da moderação.

Pense nisso. Sucesso!




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