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Rodrigo d’Eça Neves


Geral
Atualização as quintas-feiras
Quinta-feira, 23/02/2012, às 06:00
Tubarão – Florianópolis de ônibus

Os ônibus que transportavam passageiros e cargas neste destino eram dotados de assentos semirrígidos, cujos encostos não reclinavam, o que não permitia a comodidade de hoje. Seus motores ficavam na dianteira, como ainda temos alguns caminhões com o cofre do motor seguido do parabrisa e cabine longa ocupando todo o chassi, com o local do motorista e as outras poltronas. A porta de entrada era na frente, ao lado do motorista, normalmente no lado direito, por onde entravam e saíam os passageiros.

Ao lado de cada poltrona tinha uma janela com dois vidros, que eram comandados por uma tira de couro com buracos, como uma cinta, que quando tracionada elevava o vidro e era fixada num botão onde era ajustado no furo.

As malas e caixas eram acomodadas em cima, em estrado colocado no teto, amarradas com cordas e cobertas com lona. As encomendas delicadas, como cartas e outros de pequeno porte, iam dentro com o condutor.

Como descrevemos, os assentos opcionais de lâminas de couro fixáveis entre os assentos abrigavam os passageiros extras.

Estes usuários do corredor geralmente levavam consigo pequeno porco, galo, galinha ou outro presente geralmente cheiroso que, por não estarem acostumados a viajar, enjoavam. Numa viagem, houve algo raro: a galinha que estava no colo da senhora sentada ao centro cacarejava sem parar.
Não demorou muito para aparecer ovo que ela botou no afundado da saia da proprietária.

Resultado, a mulher roxa de vergonha e nós com risos sádicos e cínicos disputamos o direito de exercer o direito de posse sobre tão especial produto.

Seu Martinho, figura loura de corpo avantajado e os braços cheios de bolotas de gordura, era o antigo e experiente motorista, que de tanto conduzir o coletivo nesta rota, conhecia e era conhecido por todos os viajantes. Não tardou em restituir a tranquilidade a bordo. Ele gostava de registrar a passagem pelo local onde havia sido assassinada a Beata Albertina. Nas paradas também entregava e recebia as mercadorias despachadas, encomendas a serem entregues no meio do caminho para algum amigo ou parente, todos conhecidos do motorista. Os passageiros urbanos mais velhos se apresentavam vestidos de terno e gravata e, em geral, a maioria dos passageiros cobria-se com guarda-pó que chegava ao destino justificando seu uso.

Não era raro cruzar com caminhão, outro coletivo, automóvel, em geral com pneus ou suspensão avariados em razão dos buracos ou costeletas tão comuns nas estradas de terra.

O tempo gasto nestas viagens se aproximava de oito a dez horas acompanhadas de fome e sede, que em nome do imprevisto levava-se lanche e água mineral.

Muitos eram os estudantes de Tubarão que se deslocavam até Florianópolis para estudar Direito, Farmácia, Bioquímica, Filosofia ou Odontologia. O tempo passou e novos conceitos de ônibus surgiram. Criaram novo modelo, modificando a dianteira dos veículos, em que o comando e a entrada avançaram deixando o motor no meio.

Esta mudança aumentou a área útil para distribuição de lugares e facilitou o acesso ao motor em área coberta em caso de pane. Os assentos passaram a ser estofados, aumentando a comodidade dos passageiros. Aos poucos, os bagageiros foram passando da capota para os porões entre eixos. Melhoraram os rádios, que recebiam os sons com clareza e eram bem distribuídos pelos assentos, assim como o ar controláveis pelo viajante. Quando terminaram a construção do trajeto entre os destinos, as viagens passaram a transitar por baixo, evitando as serras.

Nesta época havia uma situação especial, que era o uso da praia como estrada, entre Torres e Tramandaí, no Rio Grande do Sul, quando se dirigiam os estudantes de Engenharia, Arquitetura e Medicina que iam para Porto Alegre.

Como eram dois horários, um pela manhã outro à tarde, as naves se cruzavam no meio da viagem. Depois que aumentou o número de passageiros foi, então, lançado o ônibus direto, aquele que não parava no meio da viagem para recolher passageiros. Neste período, o tempo de viagem foi reduzido para cerca de 4 horas. Com as estradas asfaltadas nem poeira tinha mais.

A população cresceu, o número e tamanho dos veículos multiplicou e aumentou muito o tráfego. Hoje estamos penando sem a prometida duplicação da rodovia.

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